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Política · Canal Estado SP

PL sai fortalecido das urnas, mas enfrenta resistência para ampliar poder no Congresso

PL conquista maior bancada, mas articulação do Centrão favorece permanência de Hugo Motta no comando da Câmara.

Amanda Mendes
Amanda Mendes

Publicado em 5 de novembro de 2026, 10:15 — Em São Paulo

4 min de leitura
PL sai fortalecido das urnas, mas enfrenta resistência para ampliar poder no Congresso
PL sai fortalecido das urnas, mas enfrenta resistência para ampliar poder no Congresso

O avanço eleitoral do PL nas eleições de 2026 não significa, necessariamente, maior protagonismo nas principais decisões do Congresso Nacional. Apesar de conquistar a maior bancada da Câmara dos Deputados e reunir uma expressiva força política após o segundo turno, o partido de Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para converter o desempenho nas urnas em influência direta sobre a presidência da Casa.

O cenário revela uma movimentação que expõe as contradições da articulação política em Brasília: enquanto parte das legendas que apoiaram Flávio Bolsonaro na disputa presidencial agora se aproxima de Hugo Motta (Republicanos-PB), o atual presidente da Câmara trabalha para consolidar uma ampla frente de apoio à sua recondução ao cargo.

A estratégia também encontra reflexos no Senado, onde Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) busca construir uma articulação semelhante para preservar seu espaço de influência e limitar o crescimento da oposição.

Na Câmara, a movimentação de Motta chama atenção especialmente porque o parlamentar esteve ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a campanha eleitoral. Mesmo assim, conseguiu atrair partidos do Centrão que estiveram no campo adversário na disputa presidencial. A aproximação demonstra que, no Legislativo, alianças institucionais e interesses políticos podem prevalecer sobre as divisões estabelecidas durante uma eleição.

A relação entre Motta e o governo Lula também foi marcada pela condução de pautas importantes para o Planalto. Entre elas, a proposta de fim da escala de trabalho 6x1 e a ampliação do limite de faturamento dos microempreendedores individuais (MEIs), medidas que tiveram apoio do presidente da República.

Os números ajudam a dimensionar o contraste entre força eleitoral e capacidade de articulação parlamentar. Segundo levantamento publicado pelo Metrópoles, os partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno elegeram 286 deputados, enquanto as legendas alinhadas a Lula conquistaram 124 cadeiras.

Entretanto, essa vantagem numérica não se traduziu automaticamente em unidade política para disputar o comando da Câmara. A articulação liderada por Motta já reúne 15 partidos, responsáveis pela eleição de 361 deputados.

Para garantir a vitória no primeiro turno da eleição para a presidência da Casa, marcada para 1º de fevereiro de 2027, são necessários pelo menos 257 votos, considerando o total de 513 parlamentares. Embora a votação seja secreta, o compromisso de diferentes lideranças partidárias com a recondução do atual presidente lhe confere uma vantagem considerável.

Do outro lado, o PL conquistou 121 cadeiras e terá a maior bancada da Câmara. O resultado representa uma posição relevante na correlação de forças do Legislativo, mas não é suficiente para assegurar, isoladamente, uma candidatura competitiva à presidência.

A eventual adesão do partido ao grupo de Motta ampliaria a aliança para 16 legendas e poderia elevar a base de apoio potencial a 482 deputados, caso os demais partidos mantivessem seus compromissos.

É justamente nesse ponto que está o principal impasse. A direção do PL precisa decidir se formaliza apoio à recondução de Motta ou se permite que parlamentares da legenda estabeleçam negociações individuais com o grupo que já se articula em torno do atual presidente.

A resistência de setores bolsonaristas não é apenas uma questão de estratégia parlamentar. O posicionamento de Motta durante a campanha presidencial, especialmente seu apoio a Lula, tornou-se motivo de críticas entre integrantes da bancada. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, está entre os nomes que manifestaram publicamente insatisfação com essa aproximação.

Mais do que uma disputa por cargos, o cenário evidencia uma questão central da política brasileira: até que ponto a força demonstrada nas urnas consegue determinar quem efetivamente exerce o poder dentro das instituições?

O PL sai das eleições com uma bancada expressiva e capital político suficiente para reivindicar maior participação nas decisões nacionais. No entanto, a movimentação do Centrão demonstra que tamanho eleitoral não é sinônimo de controle institucional. Em Brasília, a construção de maiorias depende de negociações, concessões e alianças que nem sempre acompanham a lógica das disputas presidenciais.

O episódio também merece uma reflexão sobre a coerência das alianças políticas. Quando partidos que disputaram uma eleição em campos opostos se unem logo depois em torno de interesses comuns, cabe questionar quais compromissos permanecem efetivamente orientados por projetos políticos e quais são determinados pela conveniência do poder.

No fim, a disputa pela presidência da Câmara vai além dos nomes de Motta, Flávio Bolsonaro ou das lideranças partidárias. Ela coloca em debate a representatividade do voto, a autonomia do Congresso e os limites entre governabilidade e pragmatismo político. Se a vontade popular define a composição do Parlamento, quem deve definir os rumos de seu comando: a força expressa nas urnas ou a capacidade de articulação construída nos bastidores?

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