Crise bancária derruba presidente do Paraguai e desgasta direita latina
Colapso do Ueno Bank, suspeitas de irregularidades e perda de apoio dentro do Partido Colorado colocaram Santiago Peña sob forte pressão política.
Publicado em 6 de novembro de 2026, 14:44 — Em São Paulo

A crise financeira que abalou o Paraguai ultrapassou os limites do sistema bancário e atingiu o centro do poder político. A renúncia de Santiago Peña à Presidência, anunciada nesta quinta-feira (5/11), ocorre em meio ao colapso do Ueno Bank, instituição que reunia milhões de clientes, administrava expressivos recursos públicos e mantinha vínculos com o grupo empresarial do qual o próprio presidente foi acionista.
O episódio representa mais um abalo para o campo conservador latino-americano, que enfrenta dificuldades em diferentes países. Na Argentina, Javier Milei convive com turbulências políticas e econômicas. No Brasil, a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais, seguida de sua fuga para os Estados Unidos, interrompeu o avanço da articulação política alinhada ao ex-presidente norte-americano Donald Trump na região.
Apesar das diferenças entre seus projetos e realidades nacionais, essas lideranças compartilham discursos de oposição à esquerda, pautas conservadoras e aproximação com Trump. Nesse cenário, a saída de Peña, considerado um importante aliado de Washington na América do Sul, amplia as incertezas sobre a capacidade de sustentação desse campo político no continente.
Colapso financeiro expõe conexões políticas
O ponto de ruptura foi a intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, determinada na terça-feira (3/11). A autoridade monetária identificou que o índice de solvência da instituição estava abaixo do patamar mínimo de 50% estabelecido pela legislação do país.
A decisão suspendeu as operações do banco e provocou impactos imediatos sobre quase 3 milhões de clientes, em uma nação com aproximadamente 6,1 milhões de habitantes. A dimensão do problema também ficou evidente diante da exposição do setor público: a instituição concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos governamentais, entre eles recursos do Instituto de Previdência Social (IPS).
As suspeitas de irregularidades ampliaram a gravidade do caso. Investigações apontaram possíveis concessões de empréstimos a empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, controlador do banco. A conexão empresarial colocou Peña sob pressão, uma vez que ele manteve participação acionária no grupo até março de 2025.
O que inicialmente poderia ser tratado como uma crise de liquidez e fiscalização bancária transformou-se, assim, em um problema de confiança institucional. A proximidade entre interesses privados, recursos públicos e integrantes do governo passou a ocupar o centro do debate.
Isolamento político acelerou a queda
A deterioração da situação econômica foi acompanhada pelo enfraquecimento da sustentação política de Peña. O presidente perdeu respaldo dentro do próprio Partido Colorado, força tradicional da política paraguaia e principal base de seu governo.
O golpe mais significativo veio de Horacio Cartes, ex-presidente do país e uma das figuras de maior influência na legenda. Ao manifestar apoio ao julgamento político de Peña, Cartes evidenciou o isolamento do chefe do Executivo justamente quando ele mais precisava de sustentação partidária.
A combinação entre o escândalo financeiro, a pressão institucional e a ruptura dentro de sua própria base política tornou a permanência de Peña no cargo cada vez mais insustentável.
Uma crise que ultrapassa as fronteiras paraguaias
O episódio reacende uma discussão fundamental sobre os limites entre poder político e interesses econômicos na América Latina. Também coloca em evidência os riscos de governos que, mesmo sustentados por maiorias partidárias e alianças empresariais, enfrentam dificuldades para preservar a confiança pública diante de suspeitas envolvendo instituições financeiras.
Mais do que representar um revés para a direita regional, a crise paraguaia levanta questionamentos sobre transparência, responsabilidade política e mecanismos de fiscalização do dinheiro público.
E fica uma questão para o debate público: até que ponto a proximidade entre governos e grandes grupos econômicos compromete a democracia e coloca em risco os recursos da população? A queda de Peña deve ser interpretada como uma crise isolada do Paraguai ou como um sinal de esgotamento de um modelo político que se fortaleceu na América Latina nos últimos anos?




