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Política · Canal Estado SP

Brasil aposta em novo cenário político para reconstruir relação com os Estados Unidos

Governo Lula aposta no fim das tensões eleitorais para reconstruir pontes com Washington.

Amanda Mendes
Amanda Mendes

Publicado em 6 de novembro de 2026, 16:24 — Em São Paulo

3 min de leitura
Brasil aposta em novo cenário político para reconstruir relação com os Estados Unidos
Brasil aposta em novo cenário político para reconstruir relação com os Estados Unidos

A expectativa do governo brasileiro é que o calendário eleitoral abra caminho para uma reaproximação diplomática com os Estados Unidos e reduza as tensões que marcaram a relação entre os dois países nos últimos meses. Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que, superadas as eleições presidenciais no Brasil e as eleições de meio de mandato norte-americanas, haverá espaço para uma retomada gradual do diálogo entre Brasília e Washington.

Na avaliação de interlocutores do Planalto, parte dos atritos recentes esteve diretamente relacionada ao ambiente político-eleitoral brasileiro e às expectativas em torno de uma eventual mudança no comando do país. Nesse contexto, medidas adotadas pelo governo de Donald Trump, como a imposição de tarifas comerciais e as restrições à concessão de vistos a autoridades brasileiras, contribuíram para aprofundar o desgaste diplomático.

Com a vitória de Lula, aliados do presidente entendem que diminui a possibilidade de novas ofensivas norte-americanas motivadas por interesses eleitorais no Brasil. A leitura é de que, sem a perspectiva imediata de uma mudança de governo em Brasília, perde força o incentivo político para que Washington amplie as pressões sobre o país.

O cenário abre espaço para o que auxiliares presidenciais classificam como uma espécie de normalização pragmática das relações bilaterais. A proposta não pressupõe o desaparecimento das divergências políticas e ideológicas entre Lula e Trump, mas a construção de uma agenda de interesses compartilhados, capaz de preservar canais de negociação e evitar que diferenças de posicionamento comprometam áreas estratégicas de cooperação.

Outro fator considerado relevante por integrantes do governo brasileiro é o resultado das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, conhecidas como midterms. Uma eventual maioria democrata no Congresso norte-americano é vista em Brasília como uma oportunidade para ampliar a interlocução em temas nos quais os dois países possuem convergências, especialmente a agenda ambiental e a regulação das grandes empresas de tecnologia.

Além de favorecer o debate sobre essas pautas, o Legislativo dos Estados Unidos poderia funcionar como um contrapeso a eventuais iniciativas da Casa Branca contra interesses brasileiros. Na avaliação de aliados de Lula, parlamentares democratas também teriam condições de destravar propostas de cooperação bilateral que permanecem sem avanço.

Um dos exemplos mencionados é o pedido de colaboração encaminhado pelo Ministério da Justiça às autoridades norte-americanas. O governo brasileiro busca informações que permitam rastrear movimentações financeiras e identificar o destino dos recursos do fundo Havengate, mencionado nas investigações relacionadas ao caso Dark Horse. Até o momento, segundo interlocutores do governo, a solicitação não apresentou avanços.

Apesar das expectativas de reaproximação, Brasília reconhece que o futuro das relações dependerá, sobretudo, dos próximos movimentos da administração Trump. A disposição norte-americana para retomar o diálogo e tratar de assuntos de interesse comum será determinante para transformar a expectativa diplomática em resultados concretos.

Nesse contexto, um possível encontro entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, durante a reunião do G7, prevista para a próxima semana, ganha importância. A conversa é vista como uma oportunidade para avaliar o nível de abertura de Washington e identificar se existe disposição efetiva para inaugurar uma nova etapa nas relações entre os dois países.

Mais do que um gesto protocolar, a reunião poderá indicar se Brasil e Estados Unidos estão dispostos a deixar as disputas políticas recentes em segundo plano e priorizar uma agenda de cooperação.

O debate que se coloca é: até que ponto a relação entre Brasil e Estados Unidos pode ser conduzida por interesses econômicos, diplomáticos e estratégicos, independentemente das diferenças ideológicas entre seus presidentes? E uma eventual maioria democrata no Congresso norte-americano seria suficiente para conter novas pressões de Donald Trump sobre o Brasil?

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