STF atinge pior avaliação da série histórica em meio a crise envolvendo ministros
Datafolha registra 47% de reprovação em meio à crise envolvendo ministros da Corte.
Publicado em 30 de setembro de 2026, 12:16 — Em São Paulo

A relação entre a sociedade brasileira e o Supremo Tribunal Federal atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Pesquisa Datafolha divulgada no sábado (26.set.2026) mostra que 47% dos entrevistados classificam como ruim ou péssimo o trabalho dos ministros do STF; o maior percentual registrado desde o início da série histórica, em 2019.
O resultado surge em um momento de forte exposição da Corte. Nas últimas semanas, o chamado caso Banco Master colocou ministros do Supremo no centro de questionamentos sobre relações pessoais e profissionais com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Documentos e mensagens obtidos pela Polícia Federal revelaram contatos, contratos, viagens e relações envolvendo ministros, familiares e pessoas próximas a integrantes do tribunal. As circunstâncias estão sob investigação e os magistrados citados contestam irregularidades.</u>
A crise ganhou uma dimensão ainda mais institucional quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte das investigações do Banco Master. O material divulgado passou a alimentar discussões dentro e fora do Supremo sobre possíveis conflitos de interesse, suspeição e os limites da atuação dos próprios ministros.
É nesse ambiente que aparece o número mais expressivo da pesquisa: 47% de avaliação negativa. Em maio, eram 40%. Na outra ponta, apenas 18% consideram o trabalho dos ministros ótimo ou bom, enquanto 31% avaliam a atuação como regular. Outros 4% não responderam.
O levantamento também revela que a percepção sobre o Supremo está fortemente relacionada ao ambiente político. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 69% classificam o trabalho dos ministros como ruim ou péssimo. Entre os eleitores de Lula, o índice é de 24%. Já a avaliação positiva chega a 32% entre os eleitores do presidente e fica em 6% entre os eleitores de Flávio.</u>
Os números, entretanto, não permitem concluir que a queda de avaliação tenha sido causada exclusivamente pelas controvérsias recentes. A pesquisa registra a percepção dos entrevistados naquele momento; estabelecer uma relação direta de causa e efeito exigiria uma análise específica. Ainda assim, a coincidência temporal coloca a crise institucional no centro da discussão pública.
O próprio Datafolha mediu a percepção dos brasileiros sobre algumas condutas de ministros. Para 88% dos entrevistados, seria inaceitável que um magistrado julgasse processo envolvendo pessoa cujo advogado fosse seu parente. Outros 85% consideram inaceitável que um ministro aceite convites para eventos pagos por empresas que tenham ações no tribunal.
A pesquisa também encontrou maioria favorável à criação de um código de ética específico para os ministros do Supremo: 45% disseram ser totalmente ou parcialmente favoráveis à ideia, enquanto 33% se declararam contrários. A proposta é defendida pelo presidente da Corte, Edson Fachin, e busca estabelecer parâmetros para conflitos de interesse, transparência e conduta dos magistrados.
O levantamento ouviu 2.002 eleitores em 125 municípios, entre 22 e 23 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00304/2026.
Mais do que uma fotografia negativa do Supremo, o resultado coloca uma questão maior diante da sociedade: como preservar a independência de uma Corte constitucional sem abrir mão de transparência, fiscalização e mecanismos de responsabilização?
O debate não precisa ser reduzido à defesa ou à condenação dos ministros. Instituições democráticas também precisam ser capazes de responder a questionamentos, esclarecer suspeitas e aperfeiçoar suas próprias regras. No fim, a confiança pública não depende apenas das decisões tomadas pelo Supremo, mas também da percepção de que aqueles que decidem em nome da Justiça estão submetidos a padrões claros de integridade e transparência.
É nesse ponto que o recorde registrado pelo Datafolha deixa de ser apenas um número de pesquisa e se transforma em um sinal para todo o sistema institucional brasileiro: quando a confiança diminui, a resposta mais importante talvez não seja disputar a narrativa, mas fortalecer os mecanismos que permitem ao cidadão fiscalizar o poder.</i>




