Disputa pelo Senado amplia divergências entre grupos da direita em São Paulo
A corrida por duas vagas ao Senado por São Paulo começa a expor divergências dentro do campo da direita. A candidatura de Ricardo Salles (Novo), lançada de forma independente da chapa apoiada pelo gov
Publicado em 13 de agosto de 2026, 11:37 — Em São Paulo

A corrida por duas vagas ao Senado por São Paulo começa a expor divergências dentro do campo da direita. A candidatura de Ricardo Salles (Novo), lançada de forma independente da chapa apoiada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), vem provocando atritos principalmente com André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo.
Ex-ministro do Meio Ambiente durante o governo Jair Bolsonaro, Salles tem adotado uma postura de confronto direto com Prado. Entre as críticas feitas pelo candidato está a acusação de que o presidente da ALESP tenta se apresentar como aliado do bolsonarismo, mas, na avaliação de Salles, não teria o mesmo alinhamento político.
A disputa ganhou ainda mais atenção depois que pesquisas de intenção de voto colocaram Salles e Prado em situação tecnicamente empatada. Os dois aparecem atrás de Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), nomes ligados à chapa de Fernando Haddad (PT). Pablo Marçal (União Brasil), que está inelegível, também apareceu à frente dos dois na sondagem. Guilherme Derrite (PP), deputado federal e ex-secretário da Segurança Pública de Tarcísio, também figura entre os candidatos mais bem posicionados.
Apesar da concorrência, Derrite tem evitado tratar Salles como adversário. Durante a convenção estadual do partido, realizada no dia 20, afirmou manter uma relação de amizade com o ex-ministro e reconheceu que a presença de mais um nome identificado com a direita pode dificultar a conquista das duas cadeiras em disputa.
Segundo Derrite, a divisão entre candidaturas pode reduzir as chances de a direita eleger dois senadores, mas Salles teria legitimidade para disputar a eleição. O deputado afirmou ainda que não considera o ex-ministro um adversário político.
No mesmo evento, André do Prado adotou outra postura. Ao ser questionado sobre como pretende enfrentar a candidatura de Salles, respondeu que a questão deveria ser tratada pelo próprio concorrente. Prado destacou que ele e Derrite foram escolhidos para integrar a chapa apoiada pela família Bolsonaro e por Tarcísio.
Outro episódio que alimentou as especulações sobre a relação entre os integrantes do grupo ocorreu durante a convenção estadual do partido.
Prado não estava presente no momento em que Tarcísio e Flávio Bolsonaro (PL) discursaram. No palco e nas proximidades estavam diversas lideranças da direita paulista, entre elas Derrite, o deputado Maurício Neves (PP), Milton Leite (União Brasil), o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), o vice-governador Felício Ramuth (MDB) e o deputado estadual Delegado Olim (PP).
Ao mencionarem a chapa para o Senado, tanto Tarcísio quanto Flávio citaram Derrite e André do Prado. O presidente da Alesp, porém, já havia deixado o local.
A assessoria de Prado informou que ele saiu da Assembleia para participar, em Osasco, do lançamento da pré-candidatura de Rogério Lins (Podemos) a deputado estadual. Lins foi prefeito da cidade por dois mandatos e também comandou a Secretaria Municipal de Esportes na gestão de Ricardo Nunes.
Dias depois, durante a convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República, o discurso de Prado também provocou reações discretas entre parte dos apoiadores presentes.
Um militante que vestia uma camiseta com o rosto de Jair Bolsonaro comentou, de forma crítica, sobre a atuação de Prado. Ao ser perguntado sobre seu voto para o Senado, afirmou que apoiaria Guilherme Derrite e Ricardo Salles.
A relação entre Salles e Prado também passou a ser marcada por acusações públicas e disputas na Justiça Eleitoral.
Salles tem associado Prado ao Centrão e questionado seu alinhamento com Bolsonaro. No início de agosto, depois que o Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação da candidatura do ex-ministro em razão de pendências documentais relacionadas à obtenção de certidões da Justiça Estadual, Salles utilizou o episódio para atacar o presidente da ALESP.
Em vídeo publicado nas redes sociais, explicou que a questão estava relacionada a um processo envolvendo uma motociata realizada em 2022, quando Bolsonaro ainda ocupava a Presidência. Na mesma gravação, aproveitou para questionar a presença de Prado em manifestações de apoio ao ex-presidente.
A disputa já chegou ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Duas representações foram apresentadas em razão de conteúdos relacionados aos ataques entre os candidatos.
Em uma delas, apresentada pelo PL, Salles foi condenado a pagar R$10 mil em multa por impulsionar no Instagram um vídeo contra André do Prado. A Justiça Eleitoral considerou que o material utilizava imagens manipuladas sem a devida identificação e caracterizava propaganda eleitoral negativa irregular durante a pré-campanha. A decisão ainda pode ser contestada por meio de recurso.
Há também uma representação apresentada pelo próprio Prado. O caso envolve uma publicação feita por um perfil que se apresentava como apoiador de Salles e que, segundo a acusação, tinha como objetivo desestimular eleitores a votar no presidente da ALESP.
Salles negou ter conhecimento sobre quem administrava o perfil. Em relação à condenação envolvendo o vídeo publicado em suas redes, afirmou que recorreu da decisão e voltou a defender as críticas feitas contra Prado.
A movimentação dos candidatos ocorre em um cenário no qual aliados de Tarcísio e Bolsonaro tentam organizar uma estratégia conjunta para a eleição ao Senado. O governador e Flávio Bolsonaro têm manifestado apoio a André do Prado e Guilherme Derrite, enquanto Salles mantém uma candidatura independente.
A divisão ficou visível também durante o debate da Band para o governo paulista, realizado no último domingo, dia 09. Derrite acompanhou o encontro na plateia próximo a Ricardo Nunes. Ao lado do prefeito estava Osvaldo Nico, delegado que assumiu a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo depois de Derrite deixar o cargo.
André do Prado, por sua vez, ocupava outro espaço no estúdio.
Com duas vagas em disputa, a presença de diferentes candidaturas identificadas com a direita transforma a eleição para o Senado em uma disputa estratégica. Enquanto Salles tenta conquistar espaço fora da composição apoiada por Tarcísio e pela família Bolsonaro, Prado e Derrite buscam consolidar a chapa escolhida pelo grupo.
O resultado dessa divisão dependerá da capacidade de cada candidato de mobilizar seu eleitorado até a votação. Por enquanto, a disputa já revela que, apesar das declarações públicas de unidade, existem diferenças e interesses distintos dentro da direita paulista.



