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Cracolândia perde a grande concentração, mas casos de dependência mais que dobram

Dados expõem desafio além do fim da antiga cracolândia.

Amanda Mendes
Amanda Mendes

Publicado em 25 de setembro de 2026, 17:22 — Em São Paulo

3 min de leitura
Cracolândia perde a grande concentração, mas casos de dependência mais que dobram
Cracolândia perde a grande concentração, mas casos de dependência mais que dobram

A antiga cena de uso de drogas no centro de São Paulo mudou de configuração, mas os dados mais recentes da saúde municipal mostram que o problema da dependência química permanece. No primeiro semestre de 2026, o número de pessoas classificadas pela Prefeitura como casos de alta vulnerabilidade mais que dobrou em relação ao período anterior.

Segundo levantamento do programa municipal de enfrentamento ao crack, 447 pessoas foram identificadas entre janeiro e junho deste ano como Mais Vulneráveis (MV). São usuários com dependência severa associada a problemas de saúde graves, como tuberculose, HIV e transtornos psiquiátricos, além de histórico de resistência ou recusa a tratamentos. No mesmo período de 2025, eram 222 pessoas nessa classificação, segundo dados citados pela Folha de S.Paulo.

O crescimento ocorre enquanto o discurso sobre o chamado “fim da cracolândia” ganhou espaço no debate eleitoral de 2026. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem apresentado o fim da antiga concentração como resultado de sua gestão. Em julho, ao pedir apoio para Guilherme Derrite (PP), candidato ao Senado, Tarcísio afirmou que os dois haviam enfrentado o crime organizado e “acabado com a cracolândia”.

Os dados, porém, ajudam a colocar outra dimensão da questão em discussão. A grande concentração que durante anos marcou a região da Luz e de Campos Elíseos foi desfeita, mas usuários passaram a circular por diferentes pontos do centro. Em levantamento realizado em abril, a Folha identificou movimentação de dependentes químicos por cerca de 260 endereços de Santa Cecília e arredores. A média registrada foi de 214 pessoas por período, considerando diferentes horários do dia.

A mudança de cenário também alterou a atuação das equipes municipais. Entre janeiro e junho, foram realizadas 3.965 abordagens específicas aos usuários classificados como Mais Vulneráveis. Na média, isso representa aproximadamente nove atendimentos por pessoa durante o semestre.

A Prefeitura e o governo estadual sustentam que a redução da antiga concentração representa o fim da cracolândia enquanto território dominado por uma grande aglomeração. A gestão estadual argumenta que a dispersão dos usuários não significa a continuidade da antiga cena, já que deixou de existir um único ponto onde milhares de pessoas se concentravam. Ao mesmo tempo, a própria administração reconhece que o consumo de crack nas ruas continua sendo um problema em diferentes regiões.

O contraste entre os dois indicadores o desaparecimento da grande concentração e o aumento de pessoas classificadas em situação de alta vulnerabilidade coloca uma questão central para o debate público: como medir o sucesso de uma política de enfrentamento à dependência química?

A redução de uma cena aberta de uso pode ser considerada um resultado importante para a segurança e para a ocupação urbana. Mas os números de saúde também levantam outra discussão: se o objetivo é enfrentar a dependência, é preciso observar o que acontece com essas pessoas depois que o fluxo deixa de estar concentrado em um único endereço.

Em um ano eleitoral, portanto, o debate não se limita a saber se a antiga cracolândia acabou ou não. A questão é quais resultados devem ser considerados: a desarticulação da grande concentração, a redução do consumo nas ruas, o acesso efetivo ao tratamento ou a recuperação e reinserção social dos usuários. Os dados de 2026 mostram que essas dimensões não necessariamente caminham juntas.</i>

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