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Política · Canal Estado SP

O antipetismo e a permanência do bolsonarismo entre integrantes das Forças Armadas

A permanência do alinhamento político entre militares e o grupo bolsonarista expõe contradições e desafia o papel institucional das Forças Armadas na democracia.

Amanda Mendes
Amanda Mendes

Publicado em 3 de novembro de 2026, 10:38 — Em São Paulo

2 min de leitura
O antipetismo e a permanência do bolsonarismo entre integrantes das Forças Armadas
O antipetismo e a permanência do bolsonarismo entre integrantes das Forças Armadas

A relação entre as Forças Armadas e o bolsonarismo revela uma contradição que merece ser examinada com atenção. Em 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos, às vésperas da posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sem reconhecer publicamente o resultado das urnas, houve militares que manifestaram desconforto com sua postura. O gesto foi interpretado por parte desse segmento como incompatível com a responsabilidade institucional de quem deveria zelar pelo respeito à ordem democrática.

A crítica, entretanto, não significou necessariamente um rompimento político com o ex-presidente ou com o projeto que ele representava. Mesmo após os episódios que culminaram na tentativa de golpe para impedir a posse de Lula trama que contou com a participação de integrantes das Forças Armadas, conforme as investigações e decisões judiciais, o campo conservador manteve forte capacidade de mobilização entre militares da ativa, da reserva e seus familiares.

O fenômeno voltou a ganhar evidência quatro anos depois, com a expressiva adesão da chamada família militar à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). A escolha eleitoral demonstrou que as ressalvas feitas anteriormente à conduta de Jair Bolsonaro não foram suficientes para romper os vínculos políticos e ideológicos construídos desde 2018.

Nesse cenário, o antipetismo permanece como um dos principais elementos de identificação política dentro da caserna. Mais do que uma avaliação isolada sobre o desempenho de um governo ou de uma candidatura, a rejeição ao PT parece funcionar como um fator de coesão capaz de reunir diferentes grupos em torno de um mesmo projeto eleitoral. Assim, mesmo entre aqueles que demonstraram insatisfação com determinadas atitudes do ex-presidente, a alternativa representada pelo bolsonarismo continuou encontrando terreno fértil.

A questão, portanto, ultrapassa a preferência eleitoral de militares e seus familiares. Em uma democracia, integrantes das Forças Armadas, como qualquer cidadão, têm o direito de expressar suas convicções e participar do processo político. O ponto de atenção surge quando afinidades partidárias se sobrepõem aos compromissos institucionais, especialmente em organizações cuja missão constitucional exige hierarquia, disciplina e respeito à autoridade civil legitimamente constituída.

É justamente aí que se impõe um debate público necessário: até que ponto o alinhamento ideológico pode comprometer a neutralidade institucional das Forças Armadas? É possível separar a liberdade de escolha individual da responsabilidade de preservar as instituições democráticas? E, sobretudo, o que explica a permanência de uma identificação política mesmo diante de episódios que colocaram em risco a própria ordem constitucional?

A democracia não exige que militares abandonem suas convicções pessoais, tampouco que uma parcela da sociedade renuncie às suas preferências políticas. Exige, porém, que nenhuma identidade partidária seja colocada acima da Constituição. Afinal, a legitimidade das Forças Armadas não se constrói pela proximidade com governos ou lideranças políticas, mas pela fidelidade às instituições que juraram proteger. Essa é uma reflexão que precisa ultrapassar os quartéis e alcançar toda a sociedade.

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