Entre seguidores e votos, o desafio de Augusto Cury
Milhões de seguidores ampliam o alcance, mas não garantem votos nas urnas.
Publicado em 21 de agosto de 2026, 15:07 — Em São Paulo

A eleição de 2024 deixou uma lição que alguns partidos parecem ter interpretado de maneira precipitada: ter milhões de seguidores nas redes sociais não significa, necessariamente, ter milhões de votos. A ascensão de Pablo Marçal na disputa pela Prefeitura de São Paulo criou a expectativa de que a influência digital poderia ser convertida quase automaticamente em força eleitoral. A pré-candidatura de Augusto Cury ao Palácio do Planalto mostra que a equação é bem mais complexa.
O escritor, filiado ao Avante, reúne cerca de 8,3 milhões de seguidores no Instagram. É uma audiência superior à de nomes como Romeu Zema, Renan Santos e Ronaldo Caiado e, embora fique abaixo dos 13,1 milhões de seguidores de Marçal, coloca Cury entre as figuras políticas com grande alcance na plataforma.
O tamanho dessa vitrine digital, entretanto, ainda não aparece nas pesquisas eleitorais. Cury permanece na faixa de 1% a 2% das intenções de voto, sinal de que existe uma distância considerável entre popularidade nas redes e capacidade de mobilização eleitoral.
A questão, portanto, não parece ser simplesmente quantas pessoas acompanham determinado candidato, mas o que esse candidato consegue fazer com a audiência que construiu.
Nesse aspecto, há uma diferença importante entre Cury e Marçal. Os dois dialogam com um público interessado em desenvolvimento pessoal, superação e transformação individual. É uma espécie de discurso de prosperidade adaptado a uma geração menos vinculada às estruturas tradicionais, mas que convive com frustrações profissionais, econômicas e pessoais. A mensagem central, em diferentes formatos, é a de que o indivíduo pode romper suas limitações e assumir o controle da própria trajetória.
Marçal, porém, levou esse discurso para outro terreno durante a disputa municipal paulistana.
Em uma eleição marcada pela polarização e pela presença de Guilherme Boulos e Ricardo Nunes no centro da disputa, o então candidato conseguiu construir para si o papel de outsider disposto a confrontar aquilo que apresentava como a "velha política". Sua estratégia não se limitava a divulgar propostas ou conteúdos para os seguidores.
Havia um elemento adicional: conflito.
Ao transformar adversários em símbolos de um sistema que dizia combater, Marçal ofereceu à própria audiência uma narrativa de enfrentamento. Seus seguidores não eram apresentados apenas como espectadores de sua campanha, mas como participantes de uma disputa contra grupos políticos tradicionais.
É justamente aí que a quantidade de seguidores pode deixar de ser apenas um número e se transformar em capital político. Uma audiência se torna eleitoralmente relevante quando cria identificação, pertencimento e disposição para participar de uma campanha.
Cury, até o momento, parece enfrentar o desafio de construir essa mesma conexão política. Ter milhões de pessoas acompanhando seu conteúdo demonstra capacidade de comunicação, mas não garante que essas pessoas estejam dispostas a atravessar a fronteira entre o consumo de conteúdo e o voto.
A experiência também serve de alerta para partidos pequenos que enxergaram nas redes sociais um atalho para a competitividade eleitoral. A internet pode proporcionar alcance gigantesco a um candidato em poucos anos, mas transformar alcance em votos exige algo além de visibilidade: uma narrativa política capaz de mobilizar pessoas e conectá-las a um projeto eleitoral.
A trajetória de Cury até a eleição presidencial poderá mostrar justamente onde termina a influência digital e começa a política tradicional.



