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Boato sobre Flávio Bolsonaro movimenta buscas por Nossa Senhora Aparecida

Informação falsa sobre a padroeira do Brasil mobilizou as redes e chegou ao TSE.

Amanda Mendes
Amanda Mendes

Publicado em 29 de setembro de 2026, 10:19 — Em São Paulo

3 min de leitura
Boato sobre Flávio Bolsonaro movimenta buscas por Nossa Senhora Aparecida
Boato sobre Flávio Bolsonaro movimenta buscas por Nossa Senhora Aparecida

Por algumas horas, uma informação falsa conseguiu transformar um dos símbolos religiosos mais conhecidos do Brasil em personagem de uma disputa eleitoral. Na noite de quinta-feira (24.set.2026), começou a circular nas redes sociais a afirmação de que Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

A história não era verdadeira. O próprio candidato negou a existência de qualquer projeto nesse sentido. Ainda assim, a narrativa ganhou velocidade e chegou a alcançar diferentes plataformas, grupos de mensagens e perfis políticos. A repercussão foi suficiente para levar o caso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça determinou que plataformas como X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube removessem publicações que apresentassem como verdadeira a associação entre Flávio Bolsonaro ou sua família e uma suposta iniciativa contra Nossa Senhora Aparecida. Para o ministro, tratava-se de uma informação “notoriamente inverídica”, cuja reprodução havia ultrapassado uma publicação isolada e assumido caráter de disseminação multiplataforma.

O episódio, porém, não surgiu do nada.</i>

A origem da confusão está relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, que propunha alterar a condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. A proposta acabou arquivada em 2008 e não há, segundo as reportagens consultadas, evidência de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado, apoiado ou articulado medida semelhante.

Mesmo assim, a associação entre o candidato e o antigo projeto foi suficiente para provocar uma reação em cadeia.</b>

O efeito pode ser observado também no comportamento dos usuários. Dados do Google Trends indicaram aumento repentino nas buscas por “Nossa Senhora Aparecida” no Brasil na noite de sexta-feira. O interesse cresceu justamente quando a controvérsia já havia alcançado as redes e o TSE havia determinado medidas contra a disseminação do conteúdo.

É aí que o episódio deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e passa a revelar um problema maior das eleições contemporâneas: uma informação falsa pode precisar de poucos minutos para produzir uma impressão que uma correção leva horas ou dias para desfazer.

A religião torna esse mecanismo ainda mais potente. Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma referência religiosa para milhões de brasileiros; tornou-se também um símbolo cultural e histórico profundamente associado à identidade nacional. Colocar sua imagem no centro de uma disputa política significa atingir um campo emocional em que fatos, crenças e identidades frequentemente se misturam.

E esse não é o primeiro episódio envolvendo a imagem da santa em campanhas eleitorais. Narrativas falsas semelhantes já haviam circulado em eleições anteriores, inclusive envolvendo Jair Bolsonaro. Segundo levantamento do Aos Fatos, o episódio de 2026 recuperou justamente parte dessas antigas narrativas, adaptadas agora à candidatura de Flávio.

O caso deixa, portanto, uma pergunta que vai além de Flávio Bolsonaro ou de qualquer partido: até que ponto uma eleição pode continuar sendo uma disputa de ideias quando sentimentos religiosos são transformados em munição política por informações sem fundamento?

A resposta não está apenas nas decisões judiciais ou nas plataformas digitais. Também passa pelo comportamento de quem recebe, compartilha e comenta uma informação antes de verificar sua origem.

Em uma eleição cada vez mais disputada no ambiente digital, talvez o verdadeiro teste não seja apenas descobrir quem publicou primeiro uma mentira, mas entender por que ela conseguiu circular tão rapidamente e por que tantas pessoas estiveram dispostas a acreditar nela.

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