Smart Sampa: documentos apontam possível acesso a câmeras de outras cidades
Indícios de falhas na plataforma SentinelX levantam dúvidas sobre a segurança dos dados e o controle de acesso ao sistema. Prefeitura de São Paulo nega vulnerabilidade e atribui episódio a vazamento ilegal cometido por servidor da GCM.
Publicado em 4 de novembro de 2026, 10:09 — Em São Paulo

O Smart Sampa, programa de monitoramento da Prefeitura de São Paulo, enfrenta novos questionamentos sobre a segurança de sua estrutura tecnológica. Documentos técnicos e relatos de especialistas em segurança digital indicam que usuários com permissões básicas na plataforma SentinelX poderiam acessar câmeras e informações vinculadas a outros municípios, ampliando a dimensão do caso e levantando dúvidas sobre a proteção dos dados compartilhados entre diferentes cidades.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, uma credencial utilizada a partir de São Paulo teria permitido visualizar uma câmera de leitura de placas em Campo Grande (MS). A apuração também identificou endereços virtuais relacionados a 13 municípios expostos na internet. Entre as informações potencialmente acessíveis estariam alertas de reconhecimento facial em tempo real, registros de veículos, dados pessoais de agentes da Guarda Civil Metropolitana e boletins de ocorrência. Também foram apontadas possíveis falhas no encerramento de sessões, que poderiam manter usuários conectados por tempo indeterminado.
A Prefeitura de São Paulo nega a existência de fragilidades nos mecanismos de segurança da plataforma. A administração afirma que houve um vazamento ilegal de dados praticado por um servidor da GCM, já afastado e investigado pela Corregedoria, e sustenta que não houve utilização indevida do sistema. Até o fechamento das reportagens consultadas, a SentinelX e o Consórcio Smart City SP não haviam apresentado esclarecimentos sobre os novos questionamentos.
A controvérsia ganhou força após reportagem do UOL revelar que informações restritas permaneceram em um repositório público por aproximadamente 11 meses. O material continha 181 credenciais e dados cadastrais de mais de 6 mil agentes. A publicação também relatou acesso a imagens de uma rede com mais de 58 mil câmeras, incluindo equipamentos instalados em escolas, creches e unidades de saúde.
A dimensão do sistema chama atenção também pelo volume de recursos públicos envolvidos. O contrato firmado entre a Secretaria Municipal de Segurança Urbana e o Consórcio Smart City SP soma R$ 588 milhões, com duração prevista de 60 meses. Caso uma apuração confirme descumprimento contratual atribuível ao consórcio, a penalidade poderá chegar a 10% do valor total, equivalente a R$ 58,8 milhões. A multa, porém, não é automática e depende da identificação de responsabilidades, com garantia de defesa às empresas.
O Ministério Público de São Paulo registrou uma Notícia de Fato para analisar os indícios. A medida representa uma etapa preliminar e ainda não significa a abertura de um inquérito civil. Outro ponto que entrou no debate é o funcionamento do Conselho de Gestão e Transparência do Smart Sampa, responsável por atribuições como zelar pela confidencialidade dos dados, aprovar planos de contingência e estabelecer níveis de acesso às imagens. Segundo a página oficial do órgão, nenhuma reunião havia sido realizada em 2026 até o momento indicado na apuração.
Ainda permanecem questões fundamentais: quais municípios poderiam ser acessados, quantas consultas foram efetivamente realizadas e se os registros de atividade foram preservados? Também é necessário esclarecer se houve comunicação à Autoridade Nacional de Proteção de Dados, auditoria independente e revisão das credenciais e permissões de acesso.
Mais do que uma discussão sobre um possível vazamento individual, o episódio coloca em evidência a responsabilidade do poder público na administração de sistemas que concentram imagens e informações sensíveis de milhares de pessoas. A tecnologia pode contribuir para a segurança pública, mas sua utilização precisa estar acompanhada de transparência, fiscalização e mecanismos eficazes de proteção.
Afinal, se a população precisa confiar no Estado para ampliar o monitoramento das cidades, também tem o direito de saber quem controla esses sistemas e como seus próprios dados são protegidos. O Smart Sampa deve passar por uma auditoria independente, com resultados apresentados publicamente? Segurança pública e privacidade precisam ser tratadas como objetivos complementares, e não como direitos em disputa.




