Haddad admite atraso da esquerda na segurança
Petista coloca segurança no centro da campanha e promete metas acompanhadas pela população.
Publicado em 17 de setembro de 2026, 14:29 — Em São Paulo

Segurança pública, historicamente associada ao discurso da direita, tornou-se uma das principais apostas de Fernando Haddad (PT) na disputa pelo governo de São Paulo. Nesta quarta-feira (16), o candidato voltou ao tema e fez uma admissão política pouco comum: segundo ele, a esquerda demorou para tratar a criminalidade como uma responsabilidade central de governo.
A declaração ocorreu durante participação em um podcast apresentado pelo humorista Maurício Meirelles. Questionado sobre a dificuldade da esquerda em incorporar a segurança à sua agenda, Haddad reconheceu o atraso e afirmou que a dimensão do problema exige uma resposta direta dos governantes.</b>
Demorou um tempo para assumir responsabilidades. Se 60% da população quer solução para isso, eu não vou falar que não vou resolver?, disse.Mais do que defender uma mudança de discurso, Haddad tentou transformar a segurança em um compromisso pessoal de gestão. “Eu quero ser cobrado, quero ser responsabilizado pelo resultado”, afirmou.
A promessa está alinhada ao desenho que sua campanha vem apresentando para a área. O candidato anunciou a intenção de estabelecer metas para a segurança que possam ser acompanhadas e auditadas pela população. A proposta prevê a divulgação periódica de indicadores e mecanismos de transparência para permitir que os resultados sejam confrontados com os objetivos estabelecidos.
Da promessa ao indicador
O desafio, nesse caso, está justamente na passagem do discurso para a métrica.
O programa de segurança apresentado por Haddad prevê um “placar” de indicadores, com dados sobre esclarecimento de crimes, além de uma agência estadual voltada ao combate às facções e maior utilização de inteligência e tecnologia. Entre as propostas estão ainda integração entre forças de segurança e uso de inteligência artificial para cruzar informações criminais.</b>
Em agosto, porém, quando lançou seu plano, Haddad ainda não havia apresentado metas numéricas detalhadas para todos os indicadores. A campanha afirmou posteriormente que o planejamento seria transformado em objetivos concretos e auditáveis.
Essa diferença é relevante porque a ideia de “ser cobrado” só ganha consequência prática quando o eleitor consegue saber o que será cobrado, em quanto tempo e com qual indicador.
Crítica ao discurso da direita
Haddad também aproveitou a entrevista para atacar uma das principais bandeiras eleitorais de seus adversários. Na avaliação do petista, políticos de direita exploram eleitoralmente um discurso de endurecimento contra a criminalidade, mas não apresentam uma estratégia capaz de desmontar organizações criminosas.
O candidato citou o Rio de Janeiro como exemplo e questionou os resultados obtidos por administrações identificadas com a direita.
“A direita está surfando num slogan que não entrega. Pega o Rio de Janeiro, quem da direita que está lá? Todo mundo de direita fala grosso em ano de eleição e aconteceu o quê? Nada. Não tem estratégia para sufocar o crime”, afirmou.
A crítica, contudo, faz parte da própria disputa eleitoral. O ponto central para o eleitor paulista é separar o embate retórico das propostas concretas: quais políticas seriam adotadas, quais estruturas seriam modificadas e, principalmente, como seus resultados poderiam ser medidos.
Segurança como teste de governo
Ao colocar a segurança no centro de sua campanha, Haddad também enfrenta uma questão política mais ampla. A esquerda não precisa apenas convencer o eleitor de que incorporou o tema; precisa demonstrar que possui capacidade administrativa para entregar resultados em uma área na qual o cidadão costuma medir o governo por experiências concretas; como roubos, furtos, violência doméstica, homicídios e atuação de organizações criminosas.
Seu plano aposta em tecnologia, inteligência, integração institucional e transparência. A campanha também defende medidas como modernização das polícias e mecanismos para acompanhar publicamente a evolução dos indicadores.
Mas transformar segurança em prioridade de campanha é apenas o primeiro passo. O verdadeiro teste começaria depois da eleição: definir metas realistas, publicar os dados, explicar eventuais fracassos e permitir que a população compare promessa e resultado.
A fala de Haddad coloca uma questão que ultrapassa a disputa entre esquerda e direita: o eleitor deve cobrar menos o tom do discurso e mais a capacidade de um governo demonstrar, com números e transparência, se sua política de segurança funcionou?
Se eleito, Haddad afirma que quer assumir pessoalmente essa cobrança. A proposta de metas auditáveis pode criar um parâmetro objetivo para essa avaliação, mas também aumenta a responsabilidade de quem promete resultados.
No fim, talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais importante do debate: segurança pública não se resolve apenas com slogans mais duros ou discursos mais moderados. Exige planejamento, investigação, prevenção, inteligência, investimento, integração entre instituições e, sobretudo, prestação de contas.
Para o eleitor paulista, a pergunta decisiva não precisa ser apenas quem fala mais duro sobre crime, mas quem apresenta objetivos verificáveis, explica como pretende alcançá-los e aceita ser julgado pelos resultados.</u>




