Flávio Dino suspende julgamento sobre jogos de azar no STF
Pedido de vista adia decisão que pode redefinir o futuro das apostas no Brasil.
Publicado em 7 de agosto de 2026, 11:37 — Em São Paulo

O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou, nesta quinta-feira (6), a definição de um julgamento que pode influenciar o futuro da exploração de jogos de azar no Brasil. A suspensão ocorreu após o ministro Flávio Dino solicitar vista do processo, interrompendo a análise do recurso que questiona a constitucionalidade da contravenção penal prevista na legislação brasileira.
Antes de paralisar o julgamento, Dino indicou que tende a acompanhar o entendimento apresentado pelo ministro Luiz Fux, favorável à manutenção da validade do artigo 50 da Lei das Contravenções Penais. Para ele, a norma continua compatível com a Constituição, mesmo diante da existência de leis que autorizam modalidades específicas de apostas.
O ministro explicou que prefere aguardar o desfecho de outras ações em tramitação no STF que discutem a regulamentação das apostas, evitando que a Corte produza decisões divergentes sobre temas diretamente relacionados.
Ao manifestar sua posição, Dino ponderou que a autorização de determinadas modalidades de jogos deve estar condicionada à adoção de instrumentos eficazes de fiscalização e controle. Entre as medidas consideradas indispensáveis estão ações de combate à lavagem de dinheiro, prevenção da manipulação de resultados esportivos, proteção contra a dependência em jogos e restrições à publicidade direcionada ao público infantojuvenil.
O voto de Luiz Fux reforçou essa linha de entendimento. Segundo o ministro, a vedação à exploração de jogos de azar não se apoia exclusivamente em fundamentos de natureza moral ou religiosa, mas na proteção de interesses coletivos, como a saúde pública, o patrimônio e o bem-estar social.
Fux também rejeitou o argumento de que a legislação afronta a livre iniciativa e a autonomia individual. Em sua avaliação, o avanço das plataformas digitais ampliou os riscos da atividade, especialmente pelo uso de ferramentas de inteligência artificial capazes de identificar padrões de comportamento dos usuários e induzir um maior tempo de permanência nos jogos.
O caso é analisado no Recurso Extraordinário (RE) 966.177, que possui repercussão geral reconhecida. Isso significa que a futura decisão do STF deverá orientar o julgamento de processos semelhantes em todas as instâncias do Judiciário. A análise teve início na quarta-feira (5), com as sustentações orais das partes envolvidas, das entidades habilitadas no processo e a manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Sem prazo para devolver o processo ao plenário, o pedido de vista mantém indefinido um julgamento que poderá consolidar os parâmetros jurídicos sobre a exploração de jogos de azar no país.
O debate que chega ao Supremo vai além da legalidade dos jogos de azar. A decisão da Corte poderá influenciar o equilíbrio entre liberdade econômica, arrecadação, proteção da saúde pública e responsabilidade do Estado diante dos impactos sociais das apostas. Em um cenário de rápida expansão desse mercado, permanece a pergunta: qual deve ser o limite entre a liberdade de empreender e a necessidade de proteger a sociedade dos riscos associados aos jogos?



