Votação em áreas de milícia no Rio levanta questões sobre Flávio Bolsonaro
Levantamento aponta concentração de votos na Zona Oeste e levanta debate sobre poder armado e política.
Publicado em 13 de outubro de 2026, 12:17 — Em São Paulo

O desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) em regiões do Rio de Janeiro marcadas pela presença de milícias lança luz sobre as relações entre política, território e poder armado na capital fluminense. No primeiro turno, o senador foi o candidato mais votado em 86% dos locais de votação situados em áreas controladas ou sob influência desses grupos, segundo levantamento publicado pela coluna de Tácio Lorran.
Para chegar aos números, o levantamento cruzou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o Mapa de Grupos Armados, elaborado pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF), com informações referentes a 2024.
O resultado mostra que Flávio Bolsonaro liderou a votação em 268 locais eleitorais, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou à frente em 43. Somados, os votos recebidos pelo senador nesses pontos ultrapassaram 440 mil. A maioria dos locais está concentrada na Zona Oeste do Rio, região historicamente afetada pela atuação de grupos milicianos. No resultado geral da capital, Flávio também terminou à frente de Lula, com uma diferença de aproximadamente 137 mil votos.
Os dados, por si só, não permitem afirmar que a presença de milícias tenha determinado a escolha dos eleitores, tampouco demonstram que os votos recebidos pelo candidato tenham sido resultado de interferência criminosa. Ainda assim, a concentração de sua votação nesses territórios suscita questionamentos sobre a dinâmica política de regiões submetidas a formas de controle armado e sobre os vínculos entre representantes públicos e personagens associados a esses grupos.
As perguntas ganham outra dimensão diante de episódios envolvendo o histórico político do senador. Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete a mãe e a então mulher de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelas autoridades como miliciano e morto em 2020. O caso integra uma série de controvérsias que colocaram sob escrutínio as relações do parlamentar com pessoas investigadas ou associadas à atuação de milícias.
Outro episódio envolve a destinação de uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil a um projeto esportivo. Conforme as informações apresentadas sobre o caso, a negociação ocorreu em 2023, a pedido de Robson Calixto, conhecido como Peixe, apontado como integrante de milícia e condenado por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. A Polícia Federal identificou indícios de desvio dos recursos, circunstância que exige a distinção entre suspeitas investigativas, fatos comprovados e eventuais responsabilidades individuais.
A combinação entre o resultado eleitoral e esses episódios não autoriza conclusões automáticas sobre a motivação dos eleitores, mas evidencia a importância de investigar com rigor as conexões entre poder político, destinação de recursos públicos e grupos criminosos. Em territórios onde a atuação de organizações armadas pode interferir na vida cotidiana, a garantia de liberdade política e de transparência institucional constitui um desafio especialmente relevante.
Mais do que questionar quem recebeu mais votos, é necessário discutir as condições em que a democracia funciona nesses territórios. Como assegurar que moradores de áreas sob influência de grupos armados possam escolher seus representantes sem medo, pressão ou constrangimento? Que mecanismos de fiscalização devem ser fortalecidos para impedir que recursos públicos sejam utilizados de maneira irregular? E qual deve ser o nível de transparência exigido de agentes públicos quando surgem vínculos políticos ou financeiros com pessoas associadas ao crime organizado?
O debate público precisa avançar sem transformar moradores dessas comunidades em suspeitos por suas escolhas eleitorais e sem tratar coincidências estatísticas como prova de crime. Ao mesmo tempo, não pode ignorar sinais que mereçam apuração independente e responsabilização quando houver evidências. Em uma democracia, o voto deve expressar a vontade livre do cidadão, enquanto o poder público tem o dever de impedir que a violência, a intimidação ou interesses clandestinos ocupem o espaço que pertence à participação política. A questão central, portanto, não é apenas quem vence nas urnas, mas como garantir que a soberania popular seja preservada em todos os territórios da cidade.


