Violência política dispara durante eleições e expõe desigualdade de gênero
Levantamento registra 134 ataques em 50 dias de campanha, principalmente contra mulheres negras.
Publicado em 13 de outubro de 2026, 15:05 — Em São Paulo

O período eleitoral no Brasil foi marcado pelo avanço da violência política. Em apenas 50 dias de campanha do primeiro turno, foram registrados 134 episódios, uma média de uma ocorrência a cada nove horas. Os dados são da quarta edição da pesquisa realizada pela Terra de Direitos e pela Justiça Global.
O número supera os 121 casos identificados em período equivalente nas eleições de 2022 e evidencia a intensificação dos ataques durante a disputa eleitoral. Fora dos períodos de campanha, o levantamento aponta uma média de uma ocorrência a cada 44 horas.
A pesquisa mostra que 76% dos ataques tiveram como alvo pessoas com candidaturas registradas, principalmente nas esferas estadual e federal. As agressões ocorreram em espaços públicos e durante atividades de campanha, transformando a disputa por votos em um cenário de intimidação e ameaças à participação política.
Mulheres concentram agressões
Embora representem aproximadamente um terço das candidaturas, as mulheres foram vítimas de 52% dos episódios registrados e de 59% dos ataques direcionados especificamente a candidatos e candidatas.
A violência também apresenta características de gênero. As mulheres concentraram 62% das agressões simbólicas, como ameaças e ofensas, e foram alvo de todas as ameaças de violência sexual identificadas pelo estudo. Em 75% dos ataques contra elas, foram observados elementos discriminatórios relacionados a machismo, misoginia, racismo ou transfobia, com impacto desproporcional sobre candidatas negras.
Os dados indicam que a violência política não se limita a confrontos entre adversários. Ela também pode funcionar como instrumento de exclusão, dificultando a participação de grupos historicamente sub-representados nos espaços de poder.
Redes sociais sob questionamento
Para Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, as plataformas digitais precisam assumir responsabilidade pela circulação de conteúdos violentos. Segundo ela, as agressões, tanto na internet quanto nas ruas, são utilizadas para intimidar e restringir a expressão de determinadas candidaturas e propostas.
A declaração amplia o debate sobre os limites entre liberdade de expressão, responsabilização das plataformas e proteção de quem participa da vida pública. O desafio está em impedir que ameaças e discursos discriminatórios sejam usados para silenciar vozes sem comprometer direitos fundamentais.
Democracia exige participação sem medo
Os números levantam uma questão que vai além do calendário eleitoral: que democracia é possível quando candidatas, candidatos e cidadãos precisam lidar com a intimidação para exercer seus direitos políticos?
Garantir eleições livres não significa apenas assegurar o voto, mas também criar condições para que diferentes pessoas possam disputar espaços de poder sem sofrer ameaças ou discriminação. O enfrentamento da violência política exige respostas das instituições, das plataformas digitais, dos partidos e da sociedade.
Até que ponto a violência tem limitado quem pode participar da política brasileira e o que precisa mudar para que o debate público seja marcado por ideias, propostas e divergências, e não pelo medo?




