Tarifas expõem dependência dos EUA e Piracicaba acelera busca por novos mercados
Em encontro no SIMESPI, ApexBrasil tenta transformar pressão sobre exportadores locais em estratégia de diversificação internacional
Publicado em 23 de outubro de 2026, 20:10 — Em Piracicaba

A forte exposição da indústria de Piracicaba ao mercado norte-americano colocou a diversificação das exportações no centro da agenda econômica da cidade. Nesta sexta-feira (23), empresários, representantes do governo federal e especialistas se reuniram na sede do Simespi para discutir como abrir novos mercados para produtos fabricados na região e reduzir os riscos provocados pelas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.
O encontro Conexões Produtivas Mercosul-União Europeia foi promovido pela ApexBrasil e é resultado de uma mobilização iniciada pelo setor industrial local após o aumento das tarifas sobre produtos brasileiros.
Mais do que uma rodada institucional de apresentações, o evento ocorreu em um momento em que os números ajudam a dimensionar a vulnerabilidade de Piracicaba.
Em 2025, o município exportou aproximadamente US$ 2,76 bilhões. Cerca de US$ 2 bilhões desse total estavam concentrados em máquinas e equipamentos e 47% de todas as exportações da cidade tiveram os Estados Unidos como destino.
Nos últimos meses, essa dependência ficou ainda mais evidente. Entre janeiro e setembro de 2026, os Estados Unidos passaram a representar aproximadamente 49% da pauta exportadora de Piracicaba e 71% das vendas externas de máquinas produzidas no município.
Ao mesmo tempo, as exportações locais recuaram 0,7% no acumulado do ano, na comparação com o mesmo período de 2025. Em setembro, a queda chegou a 13,2% frente ao mesmo mês do ano anterior.
O movimento foi particularmente forte entre as máquinas destinadas ao mercado norte-americano. Desde junho, os embarques desse segmento aos Estados Unidos acumulam redução de 15,9% em valor e de 11,9% em volume.
Uma vulnerabilidade que vai além das grandes indústrias
A importância desses números está na estrutura da economia de Piracicaba.
A cidade possui grandes fabricantes de máquinas e equipamentos, mas em torno dessas empresas funciona uma extensa cadeia formada por fornecedores de peças, componentes, serviços industriais, engenharia, logística e manutenção.
Uma queda prolongada das exportações das empresas âncora tende, portanto, a produzir efeitos que podem se espalhar pela cadeia produtiva.
Foi essa preocupação que levou o Simespi a ampliar a interlocução com o governo federal e instituições ligadas ao comércio exterior.
Em agosto, uma comitiva do sindicato levou ao vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, demandas das empresas da região afetadas pelas tarifas. O encontro desta sexta-feira é um dos desdobramentos dessa articulação.
Piracicaba foi apenas a segunda cidade do interior brasileiro a receber uma edição do Conexões Produtivas voltada ao acordo entre Mercosul e União Europeia, depois de Itajaí, em Santa Catarina.
Europa surge como alternativa, mas desafio é maior
A União Europeia aparece como um dos mercados considerados estratégicos na tentativa de diversificação.
Durante o encontro, foram apresentados instrumentos para ajudar empresas a identificar compradores, adaptar produtos às exigências técnicas de outros países e financiar operações de exportação.
Entre as medidas apresentadas pela ApexBrasil está a possibilidade de ressarcimento de até R$ 40 mil para despesas relacionadas à adequação e certificação de produtos destinados a novos mercados.
Também estão previstos apoio para participação em feiras internacionais, aproximação com compradores estrangeiros, consultorias e programas de qualificação para empresas que desejam iniciar ou ampliar suas operações no exterior.
A discussão, entretanto, não significa substituir os Estados Unidos pela Europa.
O próprio presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, ressaltou durante o encontro que a estratégia é preservar o mercado norte-americano enquanto as negociações comerciais continuam, ao mesmo tempo em que as empresas buscam novos destinos para reduzir sua exposição.
Esse talvez seja o ponto mais relevante para Piracicaba.
Trocar uma dependência por outra não resolveria o problema estrutural. Para uma economia industrial exportadora, a estratégia mais segura tende a ser distribuir vendas entre diferentes regiões e mercados.
Piracicaba já sente o efeito da concentração
Os Estados Unidos responderam por 46,5% das exportações da regional do Ciesp Piracicaba entre janeiro e agosto de 2026.
No lado das importações, porém, a cadeia industrial da região mostra relações comerciais mais diversificadas. Estados Unidos, Coreia do Sul e China estão entre as principais origens dos produtos importados pelas empresas locais.
Essa diferença ajuda a revelar um desequilíbrio: a indústria de Piracicaba compra componentes e insumos de diversos países, mas ainda concentra uma parcela muito elevada de suas vendas externas em um único mercado.
Por isso, a discussão aberta pelo Simespi e pela ApexBrasil não se limita ao atual conflito tarifário.
Ela envolve uma questão de competitividade de longo prazo.
De reação a estratégia
Piracicaba continua sendo uma das principais cidades exportadoras do Estado de São Paulo. Em 2025, ocupou a quinta posição no ranking estadual e a 16ª entre os municípios brasileiros.
O município também mantém uma base industrial diversificada, infraestrutura logística privilegiada e cadeias produtivas consolidadas.
Mas os acontecimentos de 2025 e 2026 mostraram que uma cidade com essa vocação também pode ficar vulnerável quando grande parte de suas exportações depende de um único destino.
A presença da ApexBrasil, do MDIC e de outras instituições em Piracicaba representa, portanto, uma oportunidade de transformar uma reação ao aumento das tarifas em uma política mais permanente de internacionalização das empresas locais.
O resultado dessa estratégia, porém, não será medido pela quantidade de reuniões realizadas.
Será medido pela capacidade das empresas de Piracicaba de conquistar novos compradores, obter certificações internacionais, entrar em novas cadeias globais e efetivamente aumentar o número de países para os quais vendem seus produtos.
Se isso acontecer, a atual pressão comercial poderá deixar como consequência uma indústria local menos dependente, mais internacionalizada e mais preparada para enfrentar futuras mudanças na economia mundial.
Fontes: Simespi, ApexBrasil, MDIC/Comex Stat, Observatório Econômico de Piracicaba e Ciesp Piracicaba.




