Sem Lula e Flávio Bolsonaro, primeiro debate na Band é marcado por púlpitos vazios e ataques à polarização
O tradicional pontapé inicial da corrida presidencial brasileira na televisão aberta ocorreu na noite deste domingo, dia 23, nos estúdios da Rede Bandeirantes, em São Paulo. No entanto, o que deveria
Publicado em 24 de agosto de 2026, 14:39 — Em São Paulo

O tradicional pontapé inicial da corrida presidencial brasileira na televisão aberta ocorreu na noite deste domingo, dia 23, nos estúdios da Rede Bandeirantes, em São Paulo. No entanto, o que deveria ser o primeiro grande embate de ideias entre os principais postulantes ao Planalto em 2026 entrou para a história de forma inédita: como o debate mais esvaziado desde a redemocratização. Diante de púlpitos vazios que simbolizavam a ausência dos líderes das pesquisas de intenção de voto, apenas três candidatos compareceram para debater o futuro do país que foram Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que pontuava com 4% no levantamento BTG/Nexus divulgado no dia 17 de agosto, formalizou previamente sua ausência por meio de nota oficial. Já as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) optaram por uma estratégia de silêncio de bastidores, não enviando recusas formais prévias à emissora, mas deixando claro o cálculo político de evitar a exposição direta.
Sem a presença da polarização que domina o cenário nacional, o debate de três blocos converteu-se em uma vitrine para propostas de segurança pública, reestruturação econômica e reformas educacionais profundas, tendo a crítica contundente aos "fujões" como fio condutor.
O Protagonismo do Silêncio: Púlpitos Vazios no Palco
A imagem de metade dos púlpitos vazios sob os refletores da Band dominou a atmosfera do evento. A emissora manteve as estruturas destinadas a Lula e Flávio Bolsonaro no palco, mencionando as ausências ao longo da transmissão.
A recusa de Lula em participar se consolidou após a organização confirmar a presença de candidatos de partidos menores, como Zema e Renan Santos. Pela legislação eleitoral, as emissoras são obrigadas a convidar apenas candidatos de partidos com representação mínima de cinco parlamentares no Congresso Nacional, mas têm a prerrogativa de estender o convite a outros nomes. Sem a presença do petista, a campanha de Flávio Bolsonaro acionou o freio de mão: a avaliação interna era de que, como vice-líder nas pesquisas, o senador se tornaria o alvo preferencial e exclusivo de todos os adversários no palco.
A reação dos presentes foi imediata e agressiva. Logo na abertura, Ronaldo Caiado classificou os adversários ausentes como "fujões" que agridem a democracia.
“"Eles exigem a obrigatoriedade do voto do cidadão, mas não comparecem para prestar contas", disparou o governador de Goiás.”
Augusto Cury endossou o coro, afirmando que o atual presidente deveria estar presente para responder pelo "caos educacional" do país. Renan Santos elevou o tom das críticas, acusando Lula e Flávio Bolsonaro de falta de coragem e de preferirem "um jogo de cartas marcadas em Brasília" a debater publicamente com a sociedade.
Segurança Pública: Tolerância Zero e Confisco de Bens
Em um país que registrou mais de 40 mil homicídios no ano anterior, a segurança pública e a violência doméstica foram os temas de maior voltagem ideológica do encontro.
Confrontado com os índices nacionais, Renan Santos fez uma manifestação breve, convocando um esforço nacional conjunto para o enfrentamento da crise. Já Ronaldo Caiado aproveitou o espaço para nacionalizar a vitrine de sua gestão em Goiás, apresentando o estado como um modelo de sucesso no combate à criminalidade através do uso de inteligência artificial, botões de pânico e monitoramento eletrônico rigoroso de criminosos.
O debate ganhou contornos dramáticos quando Augusto Cury expôs a estatística de que uma mulher é assassinada a cada cinco ou seis horas no Brasil, totalizando 1.571 vítimas de feminicídio no último ano. Em resposta, Caiado propôs uma guinada punitiva na legislação federal:
Economia: Choque de Credibilidade e Fomento ao Microcrédito
No campo econômico, as divergências centraram-se nas fórmulas para conter a inflação, o endividamento e estimular a geração de empregos.
Caiado defendeu uma agenda de austeridade fiscal severa, com corte de despesas públicas e um "choque de credibilidade" para forçar a queda da taxa de juros a patamares de 6%, com a inflação ancorada entre 3% e 4%. O candidato do PSD criticou duramente a atual política econômica do governo federal, acusando-a de "expulsar" empresários e investidores para países vizinhos, como o Paraguai.
Augusto Cury, por outro lado, focou suas propostas na base da pirâmide social, sugerindo uma reformulação nos programas de transferência de renda e o fomento ao microempreendedorismo:
Educação: Lei de Responsabilidade Gerencial e Gestão Socioemocional
A crise na educação básica foi apontada pelos três debatedores como um gargalo estrutural e, segundo eles, um projeto político de alienação eleitoral.
Augusto Cury trouxe dados alarmantes sobre o aprendizado, alertando que 95% dos estudantes concluem o ensino médio sem o domínio básico de matemática, o que compromete o raciocínio lógico e a autonomia dos jovens. Cury criticou o modelo cartesiano do Ministério da Educação (MEC) e defendeu uma reforma curricular focada no desenvolvimento socioemocional e no acolhimento multidisciplinar, com atenção especial aos 32 milhões de neurodivergentes estimados no país.
Como medida prática de responsabilização política, Renan Santos apresentou a proposta da Lei de Responsabilidade Gerencial. Pelo projeto:
Caiado contrapôs a discussão técnica mencionando que a unificação curricular e as parcerias diretas com as prefeituras em Goiás resultaram em dados concretos: o estado hoje abriga sete das dez melhores escolas de ensino médio do Brasil, segundo índices oficiais de avaliação.
Considerações Finais: Biografias Contra a Ausência
Nas considerações finais, os candidatos buscaram consolidar suas marcas biográficas junto ao eleitorado, usando a ausência dos líderes como o principal argumento de diferenciação.
Ronaldo Caiado destacou seus 40 anos de vida pública sem envolvimento em escândalos de corrupção, mencionando explicitamente episódios como o Petrolão e as investigações de "rachadinhas" para conclamar o eleitor a rejeitar os candidatos que se recusaram a subir ao palco.
Renan Santos relembrou sua trajetória como um dos principais articuladores das manifestações de rua que culminaram no impeachment de 2016. Santos direcionou ataques severos a Lula e Flávio Bolsonaro, acusando as gestões do PT e as propostas do PL de submeterem a soberania nacional a interesses de potências estrangeiras.
Augusto Cury encerrou o debate resgatando sua história de superação pessoal com origem na escola pública. O candidato do Avante pregou a necessidade de pacificação nacional, defendendo um modelo de governança baseado em uma equipe técnica de excelência, blindada contra a corrupção e a agressividade que hoje caracterizam o debate político brasileiro.
Com o fim do primeiro confronto, a corrida presidencial de 2026 começa sob o signo do cálculo político extremo. Resta saber se o eleitorado punirá o silêncio estratégico dos líderes das pesquisas ou se a terceira via conseguirá transformar o espaço conquistado na TV em tração real nas urnas.



