Inimigas do feminismo, vitoriosas nas urnas
Deputadas mais votadas de SP e RJ fizeram da oposição ao feminismo uma de suas principais bandeiras.
Publicado em 6 de outubro de 2026, 16:07 — Em São Paulo

As eleições para as Assembleias Legislativas de São Paulo e do Rio de Janeiro produziram um resultado que chama atenção pelo contraste: as duas mulheres mais votadas nos estados são declaradamente críticas do feminismo e das pautas de gênero.
Em São Paulo, a maior votação ficou com Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos. Vereadora de Praia Grande, ela conquistou cerca de 1,9 milhão de votos e se tornou a deputada estadual mais votada do país. Durante a campanha, ganhou notoriedade nas redes sociais por seu discurso conservador e por se apresentar como “a maior inimiga das feministas”.
Campopiano afirma que conquistas individuais de mulheres não devem ser atribuídas ao movimento feminista. Sua atuação política também é marcada por posições controversas sobre indígenas e pela defesa de uma visão positiva da colonização brasileira. A nova deputada se apresenta como representante de um eleitorado conservador que rejeita parte das pautas tradicionalmente associadas à esquerda.
No Rio de Janeiro, o cenário se repete. Índia Armelau (PL), de 38 anos, foi a deputada estadual mais votada do estado. Bolsonarista, ela também construiu sua atuação política em oposição ao feminismo e às discussões relacionadas a gênero. Em agosto, chegou a ocupar a tribuna da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para pedir que as eleitoras não votassem em candidatas feministas.
A ascensão das duas parlamentares revela uma mudança importante no debate sobre a representação feminina na política. Ser mulher e ocupar um espaço de poder não significa, necessariamente, defender o feminismo ou suas principais bandeiras.
Os resultados também mostram que parte do eleitorado prefere mulheres que se identificam com pautas conservadoras e que rejeitam a ideia de que a representação feminina deva estar vinculada a uma determinada corrente ideológica.
Esse cenário coloca uma questão que vai além das duas eleições: quem pode falar em nome das mulheres? Para o movimento feminista, a ampliação da presença feminina na política está historicamente ligada à luta por direitos e igualdade. Para suas críticas, entretanto, uma mulher não precisa compartilhar dessas ideias para representar outras mulheres.
A resposta, em uma democracia, passa pelo voto. Mas a verdadeira avaliação dessas escolhas acontecerá durante os mandatos. Mais importante do que os rótulos feminista, conservadora, progressista ou de direita será observar quais propostas serão defendidas e quais resultados chegarão à vida das mulheres.




