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Delegado que investigou massacre do Morumbi Shopping critica desinternação do autor do ataque

Olavo Reino Francisco, que coordenou a investigação do ataque de 1999, relembra a operação, diz que o caso segue como o mais impactante de sua carreira e classifica como "frustrante" o desfecho que levou Mateus da Costa Meira à liberdade em 2024

GP
Guilherme Pinazza

Publicado em 18 de outubro de 2026, 01:01 — Em São Paulo

5 min de leitura
Delegado que investigou massacre do Morumbi Shopping critica desinternação do autor do ataque
Delegado que investigou massacre do Morumbi Shopping critica desinternação do autor do ataque

Mais de duas décadas depois de um dos crimes de maior repercussão da história recente de São Paulo, o delegado Olavo Reino Francisco voltou a falar sobre o massacre ocorrido em uma sala de cinema do Morumbi Shopping, na capital paulista. Em entrevista ao podcast True Crime, do SBT News, ele relembrou os bastidores da investigação que coordenou em 1999 e comentou a desinternação de Mateus da Costa Meira, autor do ataque que matou três pessoas e feriu outras quatro.

“"É frustrante. É enxugar gelo", resume o delegado ao comentar a situação atual do autor do ataque.”

O ataque de 1999

O crime ocorreu na noite de 3 de novembro de 1999. Mateus da Costa Meira, então com 24 anos e cursando o sexto ano de Medicina, entrou armado em uma sala de cinema do Morumbi Shopping durante a exibição do filme "Clube da Luta". Ele abriu fogo contra o público. Três pessoas morreram e outras quatro ficaram feridas.

Na entrevista ao SBT News, Olavo recordou que Mateus estava com uma submetralhadora e que a arma apresentou uma falha durante a ação. Segundo o delegado, o travamento foi decisivo para que o número de vítimas não fosse ainda maior. Quando os espectadores perceberam que os disparos eram reais, alguns conseguiram contê-lo antes de uma nova sequência de tiros.

Olavo também relembrou o impacto inicial da ocorrência. Ele contou que estava jantando com um oficial da Polícia Militar quando recebeu a informação de que havia disparos dentro do shopping. As equipes se deslocaram imediatamente para o local, e a investigação avançou durante toda a madrugada.

Investigação avançou ainda na madrugada

À época titular da Delegacia Seccional Sul, Olavo coordenou os trabalhos de investigação. Segundo seu relato, por volta das 6h da manhã seguinte a polícia já havia reconstruído os principais passos do autor, apreendido a arma e identificado a origem do armamento e da munição.

Os investigadores também estiveram no apartamento de Mateus, onde foram encontradas drogas e elementos que ajudaram a aprofundar a apuração. A polícia realizou ainda a reconstituição do crime no próprio shopping, com a participação de Mateus. Para Olavo, essa etapa ajudou a consolidar a materialidade do caso e a compreender a dinâmica do ataque.

O delegado afirmou que, nas primeiras horas após a prisão, Mateus permaneceu em silêncio. Mais tarde, a investigação reuniu elementos sobre seu comportamento, uso de drogas e problemas psiquiátricos. Durante a entrevista, Olavo ressaltou que o caso era incomum para a época e despertou interesse de especialistas.

Condenação, transferência e novo episódio na Bahia

Mateus foi levado a julgamento em 2004 e condenado inicialmente a 120 anos e seis meses de prisão. Em 2007, o Tribunal de Justiça de São Paulo reduziu a pena referente aos homicídios e tentativas para 48 anos e nove meses. A trajetória judicial, porém, ganhou novos capítulos depois de sua transferência para a Bahia, onde vivia sua família.

Em 2009, já no sistema prisional baiano, Mateus atacou um companheiro de cela com uma tesoura. Em 2011, no processo relativo a esse episódio, foi considerado inimputável após avaliação psiquiátrica e passou a cumprir medida de segurança em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico em Salvador.

Desinternação em 2024

Em setembro de 2024, uma decisão da Justiça da Bahia determinou a desinternação de Mateus. O processo de execução tramita em segredo de Justiça, mas reportagens publicadas à época informaram que a medida foi tomada após avaliações médicas apontarem condições para o retorno ao convívio social e familiar.

A decisão estabeleceu condições para a saída, entre elas a continuidade de tratamento psiquiátrico fora do hospital, recolhimento domiciliar noturno e proibição de portar armas, consumir drogas ilícitas ou frequentar determinados ambientes. O período inicial de desinternação foi fixado em um ano.

"É frustrante"

Ao comentar o desfecho, Olavo demonstrou incômodo. "É frustrante. É enxugar gelo", afirmou. Na conversa, ele explicou que sua reação parte da perspectiva de quem participou da investigação e acompanhou de perto a gravidade do ataque.

O delegado ponderou, entretanto, que a decisão sobre a desinternação não pertence à esfera policial. Ele destacou que casos desse tipo passam também pelo Judiciário, pelo Ministério Público e, principalmente, por avaliações médicas e psiquiátricas. Parte das críticas feitas por Olavo representa sua avaliação pessoal sobre os riscos e sobre a forma como o caso foi conduzido ao longo dos anos.

Olavo disse ainda não conhecer em detalhes a rotina atual de Mateus nem a forma como o acompanhamento é realizado fora do hospital. Ao abordar o tema, afirmou esperar que não ocorra qualquer novo episódio e ressaltou que a situação envolve também a segurança do próprio autor do ataque, que pode ser reconhecido e hostilizado em público.

O caso mais impactante da carreira

Mais de 25 anos depois, o massacre permanece vivo na memória do delegado. Questionado se aquele havia sido o caso mais emblemático de sua carreira, Olavo respondeu que foi o mais impactante. Disse ter levado dias para assimilar tudo o que havia ocorrido e fez questão de reconhecer o trabalho dos policiais envolvidos na operação.

“Segundo ele, a equipe conseguiu mapear rapidamente a ocorrência e reunir, ainda nas primeiras horas, os elementos necessários para dar sequência às perícias e ao inquérito. A investigação se tornou um marco pessoal em uma carreira de décadas na Polícia Civil paulista.”

O episódio também marcou a história da segurança pública de São Paulo. O ataque de 1999 ocorreu em um período anterior à série de massacres em escolas, cinemas e outros espaços públicos que, anos depois, ampliaria o debate internacional sobre prevenção, saúde mental, acesso a armas e protocolos de segurança em locais de grande circulação.

Memória, segurança e responsabilidade

A entrevista de Olavo Reino Francisco recoloca o caso no debate não apenas como memória de um crime que chocou São Paulo, mas também como uma discussão sobre os limites entre responsabilização penal, tratamento psiquiátrico e reinserção social. Para o delegado, a investigação foi concluída com rapidez e rigor, mas o destino do autor, décadas depois, dependeu de decisões construídas fora da esfera policial.

Ao revisitar o massacre, o relato também permite compreender como a polícia paulista atuou nas primeiras horas de uma ocorrência sem precedentes no país e como, mais de duas décadas depois, os efeitos daquele episódio continuam produzindo perguntas sobre segurança pública, saúde mental e proteção da sociedade.

Com informações do podcast True Crime, do SBT News. Fotos: True Crime / SBT News.

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