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Cinco anos sem julgamento: o caso Ana Clara

Menina de 5 anos foi morta a tiros em Niterói; recursos atrasam julgamento do acusado.

Amanda Mendes
Amanda Mendes

Publicado em 1 de outubro de 2026, 10:51 — Em São Paulo

4 min de leitura
Cinco anos sem julgamento: o caso Ana Clara
Cinco anos sem julgamento: o caso Ana Clara

Ana Clara Gomes Machado tinha cinco anos e dizia que, quando crescesse, queria ser como a mãe. Na manhã de 2 de fevereiro de 2021, porém, um disparo interrompeu qualquer possibilidade de futuro. A menina estava na porta de casa, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói, quando foi atingida por tiros de fuzil. Não resistiu.

O caso que chocou a família e mobilizou a investigação policial se arrasta desde então. Cinco anos depois, o homem acusado de efetuar os disparos ainda não foi levado a julgamento. E é justamente nesse intervalo entre a morte da criança e a espera por uma decisão da Justiça que surge um dos pontos mais controversos da história: a entrada do então senador Flávio Bolsonaro na defesa do policial militar.</u>

O acusado é o ex-cabo Bruno Dias Delaroli. Na época do crime, ele integrava a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Foi preso em flagrante após a morte de Ana Clara e, posteriormente, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por homicídio com dolo eventual. Segundo a acusação, ao abrir fogo em uma área residencial, o policial teria assumido o risco de matar. A defesa sustenta outra versão: a de que ele teria reagido a um ataque armado.

A investigação inicial também foi marcada por divergências. A Polícia Militar afirmou que os agentes haviam sido atacados por criminosos e que houve revide. A família de Ana Clara contestou essa versão e afirmou que não havia confronto no local. A Polícia Civil encontrou contradições nos depoimentos dos policiais e nas informações obtidas pela perícia. As armas utilizadas pelos agentes foram apreendidas para confronto balístico.</u>

Naquele momento, a família esperava que a investigação pudesse esclarecer de onde partiu o tiro que matou a criança. A Justiça, posteriormente, decidiu que o policial deveria ser submetido ao Tribunal do Júri.

Foi então que o processo entrou em uma nova etapa.

A defesa que mudou o caminho do processo

Flávio Bolsonaro, então senador e hoje candidato à Presidência da República, passou a integrar a defesa de Delaroli como advogado. De acordo com reportagem publicada nesta quarta-feira (30), ele assinou um recurso especial apresentado ao Superior Tribunal de Justiça contra a decisão que havia determinado que o policial fosse levado a julgamento pelo Tribunal do Júri.

O recurso foi rejeitado pelo STJ. Ainda assim, o processo não chegou ao julgamento esperado pela família de Ana Clara. Cinco anos depois da morte da menina, Delaroli responde ao processo em liberdade, enquanto a ação continua submetida a recursos e trâmites judiciais.

É essa sequência que colocou novamente o caso no centro do debate público.

A história voltou a ganhar repercussão nesta quarta-feira (30), com o lançamento de “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, episódio da série documental Revelando. A produção reconstrói a morte de Ana Clara e acompanha a trajetória judicial do caso, incluindo a participação de Flávio Bolsonaro na defesa do policial.

A repercussão ocorre também em meio à disputa eleitoral de 2026, quando Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência. A atuação profissional do político em defesa do acusado passou, assim, a ser utilizada no debate político e eleitoral.

Mas há uma distinção que não pode ser perdida no meio da disputa: defender alguém acusado de um crime é uma prerrogativa prevista no sistema de Justiça; ser acusado não equivale a ser condenado. No caso de Ana Clara, não houve julgamento que estabelecesse, de forma definitiva, a responsabilidade criminal do policial.

Ao mesmo tempo, o direito de defesa não elimina outra questão igualmente legítima: o direito da família da vítima de ver o caso analisado pela Justiça em prazo razoável.

Cinco anos depois, a pergunta continua

Para a família de Ana Clara, o tempo tem um significado diferente daquele dos autos. Cada recurso representa mais uma etapa processual; para quem perdeu uma filha, são anos sem uma resposta definitiva.

O caso expõe, portanto, uma tensão que ultrapassa a disputa entre posições políticas. De um lado, está o direito constitucional à ampla defesa e ao contraditório. De outro, está a necessidade de que o sistema de Justiça ofereça às vítimas e aos familiares uma resposta em tempo razoável.

O episódio também reabre uma discussão sobre o papel de agentes públicos e figuras políticas quando atuam profissionalmente em processos judiciais. Flávio Bolsonaro tinha, como advogado, o direito de exercer a defesa do acusado. A sociedade, por sua vez, tem o direito de conhecer os fatos, os recursos apresentados e os efeitos concretos dessas medidas sobre o andamento do processo.

Cinco anos depois da morte de Ana Clara, a questão central permanece sem resposta definitiva: quem foi responsável pelo disparo que matou uma criança de cinco anos na porta de casa?</b>

A resposta deve ser dada pelo Judiciário, com provas, contraditório e julgamento. Mas a demora também produz uma pergunta que pertence ao debate público: quanto tempo uma família deve esperar para que a Justiça transforme uma tragédia investigada em um caso efetivamente julgado?

No fim, o caso Ana Clara não trata apenas de um policial, de um advogado ou de uma disputa eleitoral. Trata também da capacidade de uma democracia de conciliar o direito de defesa de quem é acusado com o direito de uma família de não permanecer indefinidamente à espera de justiça.</u>

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