Brasil tem menor representação feminina na política da América Latina, aponta estudo
Brasil avança nas urnas, mas mulheres ainda seguem longe do poder.
Publicado em 14 de agosto de 2026, 17:30 — Em São Paulo

O Brasil continua distante da paridade entre homens e mulheres nos espaços de poder. Um estudo divulgado nesta quinta-feira (13/8) pelo Instituto Esfera de Estudos e Inovação aponta que o país ocupa a 134ª posição entre 183 nações em representação feminina no Parlamento e aparece na última colocação entre os países da América Latina.
A pesquisa, intitulada A Democracia Incompleta: Sub-Representação Feminina na Política Brasileira e Caminhos para a Paridade, reúne dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Senado e do Observatório Nacional da Mulher na Política. O levantamento mostra que as mulheres representam cerca de 18% do Parlamento brasileiro, percentual muito inferior ao de países como México, com aproximadamente 50%, e Bolívia, com 46%.
Mais candidatas, pouca conversão em mandatos
Um dos principais problemas apontados pelo estudo é a diferença entre o crescimento das candidaturas femininas e o número de mulheres efetivamente eleitas.
Entre 1998 e 2022, a quantidade de mulheres que disputaram uma vaga na Câmara dos Deputados aumentou 925%, passando de 358 para 3.668 candidatas. No mesmo período, porém, o número de deputadas eleitas cresceu 210%, de 29 para 90.
O cenário também aparece nos municípios. Nas eleições de 2024, mais de 3 mil câmaras municipais não elegeram nenhuma vereadora, segundo o levantamento. No Senado, a bancada feminina passou de 12 para 10 parlamentares na última eleição, em um total de 81 cadeiras.
Cotas entram no centro da discussão
O estudo avalia que a política de cotas, adotada no Brasil em 1997, ampliou a presença feminina nas disputas eleitorais, mas não foi suficiente para garantir maior número de eleitas. Entre os obstáculos estão a distribuição desigual de recursos, a dificuldade de acesso às estruturas partidárias e a violência política de gênero.
Como alternativa, o Instituto Esfera defende mudanças no modelo eleitoral, incluindo a possibilidade de substituir parte da atual política de cotas de candidaturas por reserva de cadeiras para mulheres. A proposta de reservar 20% das cadeiras legislativas também aparece nas discussões do novo Código Eleitoral, em tramitação no Congresso.
A comparação com outros países latino-americanos reforça o debate. México e Bolívia, que adotaram mecanismos mais próximos da paridade, apresentam índices significativamente superiores aos brasileiros.
Os números levantam uma questão que vai além das estatísticas eleitorais: é possível falar em uma democracia plenamente representativa quando mulheres, que são mais da metade da população brasileira, ocupam apenas uma parcela minoritária dos espaços de decisão?
A discussão também precisa considerar os limites das políticas de reserva de vagas. Para alguns, garantir cadeiras pode ser um instrumento necessário para corrigir uma desigualdade histórica; para outros, mudanças desse tipo exigem cautela para preservar a liberdade de escolha do eleitor e o equilíbrio entre os partidos.
O fato é que quase 30 anos de cotas produziram avanços, mas ainda não alteraram de forma significativa a estrutura de poder. O desafio brasileiro, portanto, não parece ser apenas colocar mais mulheres nas urnas, mas criar condições reais para que elas cheguem ao poder.
Uma democracia que amplia o direito de votar, mas mantém obstáculos para que determinados grupos sejam efetivamente representados, ainda tem uma parcela importante do caminho a percorrer.



