Ataques a jornalistas disparam na reta final das eleições
Ataques digitais crescem 74% antes do primeiro turno e colocam em xeque a credibilidade da imprensa.
Publicado em 16 de outubro de 2026, 15:11 — Em São Paulo

A reta final do primeiro turno das eleições de 2026 foi marcada pelo aumento da violência digital contra jornalistas e veículos de comunicação. Nos oito dias que antecederam a votação, realizada em 4 de outubro, a média diária de ataques chegou a 327, alta de 74% em relação ao início da campanha, quando eram registrados 188 casos por dia.
Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (14) pela Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O estudo monitorou publicações e comentários no X e no Instagram entre 16 de agosto e 4 de outubro. Ao todo, foram identificados 14.182 ataques em um universo de quase 3,7 milhões de conteúdos analisados.
Entre as principais estratégias identificadas estão acusações de parcialidade, manipulação de informações e interesses financeiros atribuídos a profissionais e empresas de comunicação. Expressões como “fake news”, “jornalista militante”, “imprensa militante” e “mídia golpista” foram utilizadas para questionar a credibilidade do jornalismo.
O levantamento também identificou mensagens que colocam em dúvida a integridade das pesquisas eleitorais. Entre 13 e 26 de setembro, por exemplo, o termo “fake news” apareceu 171 vezes no X e 108 no Instagram. Expressões como “caiu pix” e “pesquisa comprada” foram empregadas para insinuar que jornalistas ou institutos receberiam pagamentos para favorecer determinados interesses.
O crescimento dos ataques em um período decisivo para a escolha dos representantes políticos acende um alerta sobre o ambiente informacional durante as eleições. Nas redes sociais, críticas legítimas à cobertura jornalística convivem com tentativas de descredibilização que, quando disseminadas sem evidências, podem comprometer o debate público e ampliar a desconfiança nas instituições.
O cenário também levanta uma questão sobre os limites da liberdade de expressão e a responsabilidade no uso das plataformas digitais. Questionar a imprensa faz parte de uma sociedade democrática. Ameaçar profissionais, disseminar acusações infundadas ou tentar silenciar veículos, porém, são práticas que podem enfraquecer o direito coletivo à informação.
Em um período no qual decisões eleitorais dependem também do acesso a informações confiáveis, o desafio não é impedir críticas ao jornalismo, mas garantir que elas sejam feitas com responsabilidade e fundamentação. Quando desacreditar quem informa se torna uma estratégia política, o prejuízo ultrapassa as redações e alcança a própria democracia: como construir escolhas conscientes se a confiança na informação se transforma em alvo de ataques?




