Abstenção eleitoral chega a 33 milhões de brasileiros e registra maior índice desde 1998
Desânimo com a política, dificuldades de acessibilidade, viagens e burocracia eleitoral estão entre os fatores que ajudam a explicar a ausência de eleitores no primeiro turno de 2026.
Publicado em 13 de outubro de 2026, 12:08 — Em São Paulo
Mais de 33 milhões de brasileiros deixaram de votar no primeiro turno das eleições de 2026. A abstenção chegou a 21,08% do eleitorado, o maior percentual registrado em uma eleição presidencial de primeiro turno desde 1998, quando o índice foi de 21,49%.
Entre os fatores associados à ausência nas urnas estão a insatisfação com a política, a falta de identificação com os candidatos, os compromissos fora do domicílio eleitoral e as dificuldades para transferir o título ou acessar as seções de votação.
O resultado acompanha uma tendência observada nos últimos anos. Depois de uma redução nos índices registrados após 1998, a abstenção voltou a ultrapassar 20% em 2018 e apresentou crescimento nos pleitos seguintes.
No Brasil, o voto é obrigatório para cidadãos alfabetizados entre 18 e 70 anos. A ausência no primeiro turno, entretanto, não impede a participação no segundo, uma vez que cada etapa é considerada um pleito independente pela Justiça Eleitoral.
Desânimo com a política influencia participação
A insatisfação com a política aparece entre os fatores que ajudam a explicar o afastamento de parte do eleitorado. A polarização política e a rejeição aos dois principais candidatos à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), são apontadas pelo cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília, como elementos relacionados a esse cenário.
A percepção de que o voto não produz mudanças concretas pode contribuir para a perda de interesse no processo eleitoral e ampliar o distanciamento entre a população e a política.
A falta de identificação com os candidatos também influencia a decisão de alguns eleitores, especialmente entre aqueles que não se sentem representados pelas opções disponíveis. Nesse contexto, parte do eleitorado pode optar por não comparecer às urnas ou considerar o voto em branco ou nulo.
Burocracia e acessibilidade são obstáculos
Além das questões políticas, dificuldades práticas também interferem no comparecimento às urnas.
A mudança de cidade sem a transferência do título eleitoral pode impedir a votação quando o eleitor não consegue regularizar sua situação a tempo. O prazo para a transferência regular do local de votação terminou em 06 de maio desse ano.
Para quem estivesse fora do domicílio eleitoral no dia da eleição, havia a possibilidade de solicitar a mudança temporária para votar em trânsito. O prazo para esse procedimento terminou em 20 de agosto.
A acessibilidade dos locais de votação é outro fator relevante. Pessoas com mobilidade reduzida, em recuperação de cirurgias ou que enfrentam dificuldades para utilizar escadas podem encontrar barreiras para chegar às seções eleitorais, especialmente quando não conseguem solicitar previamente um local acessível.
A organização das zonas eleitorais e as condições físicas dos prédios também podem afetar a experiência dos eleitores e, em determinadas situações, contribuir para a desistência da votação.
Viagens e compromissos familiares fora da cidade onde o eleitor está registrado também aparecem entre as justificativas para a ausência.
Sudeste e Centro-Oeste registram os maiores índices
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral apontam diferenças regionais nos percentuais de abstenção.
O Sudeste registrou aproximadamente 15 milhões de eleitores ausentes, correspondentes a 22,7% do eleitorado da região. No Centro-Oeste, cerca de 2,6 milhões de pessoas deixaram de votar, o equivalente a 21,7%.
No Nordeste, a abstenção ficou em 18,4%, representando aproximadamente 8 milhões de eleitores. A região registrou maioria de votos para Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno.
A distribuição regional da abstenção é importante para compreender o comportamento do eleitorado, mas o aumento do comparecimento não representa, necessariamente, vantagem para um candidato específico. O impacto sobre o resultado depende das preferências políticas daqueles que não participaram da primeira votação.
Segundo turno amplia desafio de mobilização
A mobilização dos eleitores que não compareceram ao primeiro turno é um dos desafios para as campanhas presidenciais.
Segundo a análise do cientista político Murilo Medeiros, a definição de 21 governos estaduais reduz o número de disputas locais em andamento. Com isso, a eleição presidencial passa a ser a principal disputa em grande parte do país, o que pode diminuir o envolvimento de lideranças regionais e enfraquecer estruturas políticas que tradicionalmente ajudam a mobilizar eleitores.
Outro fator é o custo envolvido no comparecimento às urnas. Embora o voto seja obrigatório para a maior parte da população adulta alfabetizada, as despesas e as dificuldades de deslocamento podem representar obstáculos significativos, especialmente para pessoas de menor renda.
A multa por não votar também é considerada relativamente baixa, o que pode reduzir seu efeito como incentivo ao comparecimento.
O cenário indica que a abstenção não está relacionada a uma única causa. A insatisfação política, as dificuldades de acesso, as limitações de deslocamento e as questões burocráticas se somam e ajudam a explicar por que milhões de brasileiros ficaram fora da votação.
Quem não participou do primeiro turno ainda pode votar no segundo, desde que esteja apto a exercer o direito ao voto.



