SOROCABA

Defesa pessoal ganha espaço entre mulheres sorocabanas em meio ao avanço da violência

Modalidade criada em Israel é procurada por mulheres que buscam aprender a reconhecer situações de risco, reagir a possíveis agressões e recuperar a autoconfiança.

Juliana Scudeler Salto
Juliana Scudeler Salto

Publicado em 19 de agosto de 2026, 09:15 — Em Sorocaba

5 min de leitura
Defesa pessoal ganha espaço entre mulheres sorocabanas em meio ao avanço da violência
Krav Maga oferece aulas grátis para mulheres em Sorocaba

A violência contra a mulher não começa necessariamente com uma agressão física. Muitas vezes, ela aparece antes, de forma silenciosa, em comportamentos de controle, ameaças, ciúmes excessivos e outras atitudes que podem evoluir para situações cada vez mais graves.

Em Sorocaba, essa realidade tem levado mulheres a buscar formas de prevenção e proteção. Entre as alternativas encontradas está o Krav Maga, sistema de defesa pessoal criado em Israel que ensina técnicas para situações de risco e também trabalha a percepção sobre o ambiente.

De janeiro a julho de 2026, Sorocaba registrou cerca de 1,5 mil violações contra mulheres, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A quantidade representa mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior.

Os dados fazem parte dos registros de violações recebidos pelo Disque 100, cuja base oficial reúne informações sobre denúncias de violações de direitos humanos.

Em uma academia da cidade, as aulas de Krav Maga têm atraído mulheres com diferentes histórias e objetivos. Algumas já passaram por situações de violência. Outras procuram o treinamento justamente para adquirir conhecimento e não se sentirem despreparadas diante de uma eventual ameaça.

O instrutor Rodrigo Maia explica que a modalidade não depende de força física. As técnicas utilizam movimentos rápidos e objetivos, direcionados a pontos sensíveis do corpo.

Segundo ele, aproximadamente 30% dos alunos das turmas são mulheres.

Mais do que ensinar uma reação física, o treinamento, de acordo com o instrutor, procura trabalhar a percepção de risco e a confiança.

A proposta ganha ainda mais espaço durante o Agosto Lilás, período dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher. Durante a campanha, a academia disponibiliza aulas gratuitas para mulheres.

Uma das alunas é Daniela Hiromhi Doi, que decidiu começar a praticar Krav Maga depois de vivenciar situações de assédio, assaltos e tentativas de violência sexual.

Ela conta que, durante muito tempo, sua principal estratégia diante do medo era torcer para que nada pior acontecesse.

A experiência mudou quando ela decidiu aprender a se defender.

Daniela pratica Krav Maga há sete anos e afirma que o treinamento transformou também sua maneira de circular pela cidade.

Ela passou a prestar mais atenção ao que acontece ao seu redor, observando quem está próximo, quem a acompanha e quais situações podem representar algum perigo.

Para ela, esse conhecimento faz diferença porque a defesa não começa necessariamente no momento em que ocorre uma agressão. A percepção de uma situação potencialmente perigosa também pode ajudar na prevenção.

Daniela ainda cita o caso de uma amiga que conseguiu reagir durante uma agressão dentro de casa porque já havia treinado a modalidade.

A psicóloga Thais Mazzoti, de Sorocaba, chama atenção justamente para esse aspecto preventivo.

Segundo ela, situações de violência podem se desenvolver gradualmente e nem sempre são reconhecidas pela própria vítima no início.

Chantagens, mentiras, ciúmes excessivos e ofensas podem dar lugar ao controle da rotina, proibições, destruição de objetos pessoais e confinamento. Em uma escalada de violência, esses comportamentos podem chegar às agressões físicas, ao abuso sexual e ao feminicídio.

Por isso, reconhecer os primeiros sinais é uma das formas de proteção.

A orientação também é importante para que a mulher não espere a situação chegar a um nível extremo para procurar ajuda.

A defesa pessoal, porém, não substitui a proteção oferecida pela legislação e pela rede de atendimento.

A coordenadora do curso de Direito da Faculdade Anhanguera de Sorocaba, Taciana Cristina da Costa Cruz, explica que a mulher pode denunciar mesmo sem apresentar inicialmente todas as provas da violência.

Entre os mecanismos disponíveis estão as medidas protetivas, que podem determinar que o agressor mantenha distância e impedir contatos por ligações, mensagens, e-mails ou aplicativos.

Também pode ser determinado o afastamento do agressor da residência.

Em situações de risco à vida, a vítima pode ser encaminhada para serviços de acolhimento e abrigo. Dependendo das circunstâncias e de determinação judicial, também pode haver afastamento do trabalho por até seis meses, com manutenção do vínculo empregatício.

As medidas de proteção podem ainda alcançar os filhos quando houver risco de violência.

A mulher que precisar de orientação não está limitada à delegacia. Também pode procurar a Defensoria Pública, o Ministério Público ou o Poder Judiciário.

A rede de proteção também conta com estruturas específicas para atendimento às vítimas.

Em Sorocaba e Jundiaí, existem Salas da Delegacia de Defesa da Mulher 24 horas, instaladas em unidades policiais. O serviço permite o encaminhamento para atendimento reservado pela DDM Online mesmo fora do horário convencional das delegacias especializadas.

Em Sorocaba, novas Salas DDM foram anunciadas para o 1º Distrito Policial e para o plantão policial. A região também recebeu estruturas em Cesário Lange e Salto.

Em Jundiaí, o atendimento funciona na Central de Polícia Judiciária.

A mulher pode procurar uma unidade policial que ofereça o serviço e solicitar encaminhamento para atendimento especializado. Pelo sistema, é possível registrar a ocorrência e solicitar medidas protetivas.

Em caso de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.

O conhecimento sobre defesa pessoal pode ajudar uma mulher a perceber riscos e agir diante de uma situação de perigo. Mas a proteção também passa por informação, acesso à Justiça e pela procura da rede de atendimento diante dos primeiros sinais de violência.

No Brasil, políticas de enfrentamento à violência contra a mulher também vêm sendo ampliadas. Dados nacionais divulgados pelo Ministério da Justiça e pelo Ministério das Mulheres apontaram 741 feminicídios no primeiro semestre de 2026.

Mulheres interessadas nas aulas gratuitas de Krav Maga durante a campanha podem obter informações pela central de atendimento no telefone (11)9-7041-9797. As vagas são limitadas.

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